Recensão
A Cegueira do Rio
E se a forma de deter uma guerra não fosse disparar melhor, mas apagar a escrita que a ordena? Na primeira página de A Cegueira do Rio um rio «quer sair da água»; na última, o que parecia um rumor de água é o crepitar do fogo. Entre essas duas imagens, Mia Couto desarma um império tirando-lhe a única coisa que verdadeiramente o sustenta: a letra.
Contextualização
Publicada em 2024 pela Caminho e ainda inédita em espanhol, é um romance histórico coral com realismo mágico assinado pela voz maior da literatura africana em português — Mia Couto, Prémio Camões — e deve ler-se como ficção literária, não como relato de aventuras bélicas: o que prima é a língua e a forma, não a intriga. O seu pano de fundo é real e pouco contado: a Primeira Guerra Mundial em África. O tiro que a abre remete para o ataque ao posto português de Madziwa (agosto de 1914), primeiro morto português da guerra; ao fundo latejam a revolta Maji-Maji contra o algodão forçado e a partilha colonial do Rovuma. Dialoga com O Coração das Trevas — citado e virado do lado africano — e com a própria Terra Sonâmbula do autor.